
História e Memória das Ditaduras do Século XX
- Denise Rollemberg
- 511 Páginas
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Sinopse
Muitas são as experiências históricas que estariam fadadas ao desaparecimento, mas que chegaram até nós por meio da memória. São narrativas orais ou escritas que, assim, contornaram as convenções de seu tempo e estabeleceram, de uma forma ou de outra, o que ouvir e considerar, registrar e preservar em arquivos públicos ou privados. São narrativas sobreviventes à própria historiografia de seu tempo, que não as percebeu como fonte nem como objeto do trabalho do historiador. Tomadas assim (fonte e objeto), muito enriqueceram a produção do conhecimento histórico.
Entretanto, nem todas as memórias, evidentemente, estiveram condenadas por seu tempo. O que relegou determinadas memórias às margens foi o fato de serem produzidas por atores sociais desconsiderados, então, como tais. À medida que foram reconhecidos, suas memórias também o foram. Atraída por esse movimento, viu-se uma historiografia com tendências a confundir memória e história, sem analisar aquela como objeto desta, considerando a memória como fonte, mas sem submetê-la à crítica interna, lição primeira do ofício.
Muitos autores têm chamado a atenção para os problemas e as deformações que tal concepção acarreta.1 Memória e história são de naturezas diferentes e funcionam em registros distintos. “Tudo opõe uma à outra” (Nora, 1993:6). Destacam eles que a memória não se ocupa do conhecimento do passado. É em função das necessidades do presente, respondendo às necessidades de construção e afirmação de identidades, que a memória se volta para o passado, reconstruindo-o num viés militante. Não se trata, portanto, de um esforço objetivo e racional, mas de atribuir ao passado uma função (Rousso, 1998). Nesse movimento, formam-se mitos, temas tabus, que dificultam o conhecimento do passado; e a memória transforma-se em valor, em moral, numa religião laica; a sacralização da memória (Todorov, 2004). A memória é, assim, a representação mental do passado que tem apenas uma relação parcial com ele; constrói identidade e não o conhecimento; afirma-se pelo afeto; reconstrói um passado ideal ou diabolizado; comprime ou dilata o tempo (Rousso, 1998). A memória cumpre a necessidade de preservar continuidades, permitir ao indivíduo ou ao grupo absorver rupturas, integrá-las numa permanência; ao fazê-lo, promove defasagens entre os eventos reais e suas interpretações. Por outro lado, a história é a reconstrução erudita do passado, transmitida por meio de uma narrativa organizada. Ou, como afirmou Jacques Le Goff (2002:104), a história é a forma científica da memória. O que motiva o historiador é o conhecimento, a vontade de saber. “A memória é um absoluto e a história só conhece o relativo”, sintetizou Nora (1993:6).




