
Terra Papagalli
- José Roberto Torero
- 2 Páginas
Avaliações: 0
Baixar livro Terra Papagalli em ePub Pdf ou Mobi
Sinopse
Começo por dizer, senhor conde, que meu pai chamava-se Melquisedeque e minha mãe, Raquel. Os dois serviram no castelo do barão de Marbella, onde foram leais servos. Meu pai — e disso dão fé os livros dos feitos notáveis — até mesmo perdeu uma perna na batalha de Torremolinos contra a malvadíssima gente mourisca. Nesse combate feriu de morte a dezassete janízaros, mostrando-se valente como um tigre para preservar a vida desse nobre que, mui sabiamente, escondera-se num barril.
Como reconhecimento por tal prova de valor, deu o dito barão ao meu pai a soma de 6$500, e ele, com este óbolo, meteu-se no comércio de noz-moscada, pimenta e demais temperos das Índias. Os negócios começaram bem, seguiram melhor e prosperaram de tal modo que aquela cidade ficou pequena e nela não cabiam mais os seus desejos.
Daí vê-se, caro conde, que pouco pode o homem contra o apetite de sua cobiça, pois, se nada tem, dá graças a Deus por umas migalhas de pão; porém, se tem as migalhas, passa a desejar também uma sardinha frita; então, se ganha a sardinha, isto já não lhe basta e ele quer agora um belo bacalhau cozido e, se Deus é servido de lhe dar o bacalhau, passa a achar isso pouco e sua barriga não se contentará com menos do que uma baleia temperada com o melhor dos azeites.
Assim foi e a fome de prosperidade fez nascer no seu coração a vontade de mudar-se de Marbella para Portugal. Arranjaram-se as coisas e partiram no ano de Nosso Senhor de 1480, chegando a Lisboa no mês de setembro. O Senhor, que tudo governa, fez com que minha boa mãe desse-me à luz antes de chegarmos ao porto, como que predizendo que meus dias estariam ligados ao mar e seus perigos. Sendo meus pais judeus e sendo aquela gente pouco amável com os filhos de Moisés, tomaram por bem adotar a fé cristã e batizaram-me, ainda no convés, com o nome de Cosme Fernandes.
Fui uma criança gorda, que mamava até a última gota do leite dos peitos de minha mãe. Meu pai, quando via a sofreguidão com que eu me abraçava e sugava o seio materno, dizia: “Este há de ser glutão ou devasso.”
